sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Carta aberta



CARTA ABERTA — IMPACTOS DA OCUPAÇÃO NAS ESCOLAS PÚBLICAS —
Fábio Beserra

Preciso afirmar aqui, publicamente, algumas posições que assumo como educador. Faço isso por responsabilidade profissional, política e também moral, embora todas estejam relacionadas, faço essa divisão para dar conta dessa complexidade que é a tarefa educativa — mas que fique claro que em nenhum momento ela pode ser reduzida em um ou outro aspecto sob pena de perder seu sentido mais amplo, o qual luto por vivenciar.
Tenho como convicção, não dogma — portanto posso vir a modifica-lo frente a razões mais consistentes, de que a tarefa educativa é sempre um ato ético-político, aliás, essa perspectiva não é invenção minha, há uma centena de pensadores da educação que articulam essas esferas. Mesmo quando se isenta de assim o fazer, o educador estará imprimindo valores, recortes da realidade e práticas comunicativas que marcam um modo de agir no tecido social, portanto, de seu agir ético e político. O fato de se pronunciar “isento” não garante isenção alguma, mas tão somente inconsciência, logo, é melhor e mais honesto intelectualmente que se localize enquanto agente ético e político, pois tal posição existirá ainda que se dê na omissão ou no aceite do já instituído.
Foi a partir dessa convicção que não pude me omitir de apoiar, jamais liderar ou orientar, o movimento estudantil que acontecia em todo o Estado de São Paulo, chegando também na instituição de ensino que trabalho. Foi com grande alegria que encontrei em marcha em nossa escola um movimento estudantil auto-organizado e associado a outros movimentos estudantis. Quando informado horas antes sobre a intenção de ocuparem a escola, do mesmo modo que tantas outras o eram, não pude deixar de continuar apoiando, sobretudo porque confiava e confio na legitimidade da luta contra resoluções arbitrárias tomadas em gabinetes distantes da realidade escolar, com consequências graves não só à rede de ensino a qual nossa escola faz parte, mas, sobretudo, num ataque direto aos valores conquistados pela educação pública nacional e consolidados historicamente pela Constituição Federal e pela Lei de Diretrizes e Base da Educação.
Parece evidente, no entanto, que no agir cotidiano as pessoas não usem uma lente teórica tão ampla para observar nossas ações enquanto educadores, uma perda certamente. O mais comum é que as ações sejam reduzidas ao imediatismo dos afetos mais privados, das intencionalidades presumidas dos agentes e não das razões públicas que organizam essa prática educativa. Entra aqui, portanto, o aspecto moral, em especial essa difícil delimitação entre a moral pública e a moral privada. É preciso diferenciar esses aspectos, pois sinto que no cotidiano escolar vivemos uma ambiguidade que desgasta a todos, afinal, a tirania de uma moral sobre a outra causa desconforto e perdas enormes de energia, em especial fere uma das virtudes mais necessárias nos dias de hoje, a tolerância. E aqui, infelizmente, é preciso um pouco de conceituação.
Quando falo de moral estou me referindo a essa capacidade humana de agir e mudar comportamentos mediante julgamentos de valor, ou seja, entendendo que valor não é algo presente nas coisas, mas algo que se dá pelo investimento que o humano realiza em sua relação com as coisas. Assim, quando alguém aceita seguir uma norma como “não roubar” e entende que esse valor é compartilhado por outros agentes, vai esperar que o outro também seja capaz de entender as regras do jogo e agir respondendo pelos atos que o valor dessa norma procura cristalizar: valor à propriedade do outro, valor à justiça, valor ao respeito, etc. Não significa que roubar é errado para sempre e em todas as circunstâncias ou que essa norma é, ela própria, O Bem por si só, mas a norma indica, num jogo de linguagem, que se o agente moral vier a se desviar, terá de justificar, também moralmente — isto é, na relação com outros agentes —, a transgressão desse valor; pode vir a ser que diante da nova relação de valor apresentada seu ato seja ainda mais moral ao transgredir a regra que ao cumpri-la. No entanto, não poderá se furtar de prestar alguma justificativa ao grupo, afinal, a moral está sempre implicada numa relação entre agentes, estejam eles real ou virtualmente presentes.  Alguém que roube um pão para alimentar um faminto, ainda que transgressor de uma norma estabelecida e, portanto, moralmente suspeito, poderá justificar com valores ainda mais universais e reconhecidos essa transgressão. Acho mesmo que reside aí o cerne da moral cristã ensinada na prática pelo messias em seu tempo, basta olhar seus numerosos exemplos sobre o valor da intencionalidade do ato moral. E por mais que seja tentador fixar comportamentos entre bem e mal, a moral jamais se deixará apreender enquanto mero cumprimento de normas, exatamente porque para ganhar estatuto de ato moral e não apenas de ação automática e instintiva, ela precisa manter em aberto a liberdade dos agentes, inclusive para transgredi-la.
Voltemos ao foco do papel do educador e dessa sobreposição entre a moral privada e moral pública que, a meu ver, turva nossa visão no cotidiano escolar, criando desgastes desnecessários que enfraquecem nossa prática profissional. É evidente que todos os agentes humanos que participam do cotidiano escolar carregam valores morais privados, isto é, participam de jogos morais em diferentes contextos, assim, não há problema algum que tenhamos comportamentos religiosos, sexuais, afetivos, corporais etc., pautados pelos mais diversos valores. É evidente também que, em alguns momentos, enfrentemos o julgamento moral de campos que se misturam, afinal, a intimidade acaba por atritar as morais privadas também no âmbito escolar. No entanto, e aqui reside o ponto central, é preciso um esforço muito grande de todos os agentes, sobretudo os adultos — teoricamente mais cônscios de seu papel educativo —, a fim de não reduzir o cotidiano escolar ao encontro de diversas morais privadas. Há no espaço público da escola um jogo moral que antecede qualquer moral privada, veja, antecede, não quer dizer que exclua ou minimize a moral privada, fazendo dela refém de uma tirania do público. Isso significa dizer que ninguém precisa abandonar práticas e valores pessoais a fim de seguir uma determinada ordem pública, mas obriga sim que esse agente não reduza tudo que é público a uma ética da intimidade. Ao participar, como educador, da esfera normatizada pelas leis e princípios da educação nacional, é imperioso que o agente moral procure dar conta, publicamente e na esfera da moral pública, dos valores que o levam a agir ou deixar de agir. Aqui, não se tratam de convicções que podem ficar obscuras, agindo e julgando sob diretrizes íntimas e pessoais que escapam da ordem moral pública.  
Assim, quando decidi agir em apoio aos estudantes deixei de lado todas as relações morais mais íntimas travadas no cotidiano escolar, nesse momento a moral pública e não qualquer espécie de corporativismo precisava falar mais alto. Isso não significa que não estava ciente das frustrações e angústias que tal ruptura viria a gerar nos outros e em mim mesmo quando confrontado por outros sistemas de valor, mas a responsabilidade de agente público da educação, com suas implicações éticas e políticas, precisavam anteceder todas as outras pelo simples fato de garantir a permanência desse espaço físico e simbólico: a dimensão pública da escola.
Faço aqui, portanto, um apelo: reafirmar a tolerância como principal elemento para que não nos sintamos de “um lado” ou “de outro” na esfera da educação pública, a luta que precisamos travar deve se endereçar a tudo que ameaça a permanência da instituição pública que nos abriga. É certo que todos tiveram, em maior ou menor medida, conflitos com sua moral privada, mas também é certo que nossa moralidade pública saiu fortalecida. É certo que todos perderam algo em sua individualidade, assim como também é certo que todos saíram ganhando enquanto coletividade. Precisamos apenas melhorar as lentes teóricas a fim de não invertermos os focos entre o público e o privado e, de modo tolerante, perceber que é possível unidade dentro da diversidade. Fico aqui com um pensamento que já se tornou cliché, mas o qual acredito enunciar um elemento essencial da tolerância democrática: “Posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”. Ouso alterar para: Posso não concordar com os valores morais de tua ética privada, mas defenderei uma moral pública suficientemente tolerante para que tenha condição de vivê-la.

sexta-feira, 20 de março de 2015


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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

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